Série especial violência doméstica: ‘Fui um covarde’

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Em novembro de 2011, o jornal METROPOLITAN NEWS publicou uma pequena série de quatro reportagens sobre violência doméstica, que são republicadas com a finalidade ajudar pessoas que sofrem com o problema. Nesta primeira reportagem, há o depoimento de José Luiz Rodrigues, que teve o seu nome trocado a pedido. Rodrigues era violento e arbitrário, mas mudou a sua história a partir de uma condenação e de ter que cumprir uma pena alternativa. Leia o depoimento de José Luiz.

‘Fui um covarde’
Aos 12 anos sai de Rio Branco no Acre para morar com uma tia, irmã da minha mãe que era casada com um inspetor da Polícia do Rio de Janeiro para estudar. Se na minha casa tudo era harmonia, paz e tranqüilidade entre os meus pais que viveram casados por quase 60 anos, na casa dos meus tios tudo era um caos, pois o meu tio bebia, gritava e batia, nem sempre nesta ordem. As surras que ele dava na minha tia e nos meus primos eram constantes e todos tinham pavor dele. Em vez de seguir o exemplo do meu pai que era amoroso e atencioso com minha mãe e irmãos, eu optei por seguir o caminho do meu tio – o da violência e da agressão pois para mim o fato dele subjugar todo na casa era o ideal do macho e por causa disto deveria se impor pela força. Embora tenha me formado em direito nunca exerci a profissão e fui trabalhar com comércio exterior o que me proporcionou conhecer diversos países. Aos 22 anos me casei com a Carmem, uma mulher muito bonita com quem tive três filhos. Bati tanto nela que um dia ela foi embora e hoje mora em Portugal onde se casou com um influente funcionário da diplomacia de lá e que adotou os meus filhos e fiquei mais de 15 anos sem vê-los, porque eles se recusavam me ver por causa das coisas que eu fiz contra eles. Isto me doía o coração e as vezes achava que ia morrer de desgosto. Depois morei com mais duas mulheres e elas sofreram nas minhas mãos, pois se na rua era um cavalheiro em casa era um estúpido que só fazia gritar e agredir as mulheres. Por causa do meu trabalho me mudei para os Estados Unidos no começo dos anos 90 e morei entre a Florida, New York e Califórnia representando diversas empresas brasileiras. Depois de um tempo sozinho conheci a Maria Helena com quem fui morar e que sofreu um bocado nas minhas mãos. Um dia depois de uma surra, ela chamou a polícia e por causa disto fui condenado a cumprir uma pena alternativa e tive que freqüentar um grupo de terapia para homens violentos. Naquele lugar aprendi a ver a vida de uma outra forma, mesmo porque descobri que tinha um câncer e resolvi que tinha que dar um novo sentido à minha vida. No grupo havia um velhinho que estava ali porque agredia sua irmã e sobrinha e um dia ele me disse uma coisa que me marcou muito. Disse que se sentia tão imprestável por causa da violência que nem para tirar a vida ele servia e que queria mudar de uma vez por todas. Aos poucos fui vendo o quanto havia agido com crueldade para com minha família original e depois com as outras mulheres. Pouco tempo depois me tornei budista e definitivamente abandonei a violência como filosofia de vida. Reatei meu relacionamento com a Maria Helena e hoje temos um projeto para crianças carentes no Brasil e desde que estamos juntos há quase oito anos nunca discutimos ou brigamos. Há três anos consegui o perdão dos meus filhos e vi o quanto perdi da minha vida, depois foi a vez de me consertar com a mãe deles e foi um dos dias mais emocionantes da minha existência ao receber um abraço dela e do seu esposo. O que eu fiz foi uma covardia e posso dizer que a violência doméstica não escolhe classe social, profissão, religião, etc, mas é uma característica típica dos covardes e dos idiotas”, disse João Luis Rodrigues para esta série especial.

1 COMENTÁRIO

  1. Pesquisas apontam que a cada 5 mulheres, 3 ja sofreram violencia domestica e isso mostra o quanto tem aumentado o indice de violencia contra as mulheres. Nesse caso muitas infelizmente nao conseguem denunciar o companheiro e acabam sendo cada vez mas agredidas tanto verbalmente como fisicamente.

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