SÉRIE especial: Marcia Cruz Redding – cidadã do mundo

Sexta reportagem especial alusiva ao 'Dia Internacional da Mulher': Marcia Cruz Redding

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Marcia Cruz Redding morou no continente africano e adquiriu uma rica experiência de vida

O blog está publicando uma série de reportagens contando a história de diversas mulheres por ocasião do Dia Internacional da Mulher. A sétima história da série é de Marcia Cruz Redding, jornalista e ativista política, que não se esconde e que tem aquela velha opinião formada sobre tudo…

Resistir sempre é o lema de Marcia Cruz Redding

Jornalista de primeira, Marcia Cruz Redding, é paulistana da Zona Leste e em razão disto, gosta de afirmar e reafirmar que é corintiana. Viajada e atenta a tudo o que se passa ao seu redor, Marcia desembarcou nos Estados Unidos para ficar em 2002, vindo de Nairobi, capital do Quênia.

“Eu sou uma eterna aprendiz, alguém que tem sede de saber e que gosta de aprender sempre mais sobre o outro/a, novas culturas, línguas, ideias. Eu acredito que o saber nos ajuda a entender as pessoas e a realidade em que vivemos. Abre as portas para novos mundos todo o dia”, responde quando indagam como ela se define.

Acerca das suas viagens mundo afora, principalmente no continente africano, período que Marcia não esquece, afirma: “foram muitas as passagens marcantes. Vi muita beleza e, ao mesmo tempo, muita tristeza. O continente africano é belo e eu tive a oportunidade de conhecer vários países. Algo que realmente me marcou foi ver as atrocidades que aconteceram em Ruanda, em 1994, durante o genocídio dos Tutsis. Em Nairobi, a cobertura jornalística foi extremamente realista e factual. As cenas que mostravam a crueldade – que os seres humanos cometem contras outros seres humanos – daquele momento chocou muito. Me motivou a repensar minha própria existência. Alguns anos depois, eu viajei para Kigali, a capital de Ruanda, e visitei a igreja onde centenas de pessoas foram mortas durante o conflito entre Tutsis e Hutus. Entrar num local – supostamente – sagrado e estar ‘’face to face’ com a morte, ou o que sobrou dos vivos, foi outra passagem marcante. Cheguei a conclusão de que nós, seres humanos, temos muito que evoluir”.

Indo ali…

“Por muitos anos estive envolvida com organizações de comunicação cristã no Brasil e na América Latina. Fui secretaria da WACC – World Association for Christian Communication – para a região latino americana. Nossos encontros regionais eram realizados em diversos países. Os membros vinham de diversas nações. Foi assim que acabei sendo convidada para trabalhar em Nairobi, com a AACC – All Africa Conference of Churches. Durante o período em que trabalhei como jornalista para a organização viajei para outros países africanos como Moçambique, Ruanda, Burkina Faso, Ethiopia, África do Sul, Costa do Marfim”, sobre sua carreira de jornalista e com algumas entidades. Neste período em que considera de extrema riqueza de aprendizado, conheceu pessoas que marcaram sua vida, entre eles o Arcebispo sul-africano Desmond Tutu, da Igreja Anglicana, Prêmio Nobel da Paz em 1984 e uma das mais ativas e veementes vozes contra o apartheid. Tutu, presidiu a Comissão de Reconciliação e Verdade que promoveu a integração racial após o fim do apartheid.

“O Arcebispo sul-africano Desmond Tutu era o presidente da AACC quando eu trabalhei com a organização. Tive o prazer de estar com ele várias vezes e ser testemunha da sua bondade, simplicidade e dedicação às causas dos povos oprimidos. Ele lutou contra o apartheid – segregação racial na África do Sul – e foi o presidente da Truth and Reconciliation Commission que investigou os abusos de direitos humanos cometidos pelos grupos pro e anti-apartheid. Desmond Tutu acreditava que a reconciliação era imprescindível para as pessoas pudessem construir novas relações. Não era simplesmente perdoar e esquecer mas sim ouvir, dialogar e buscar resoluções conjuntamente, reconhecendo os erros e acertos de cada um. Responsabilidade mutua. Muitas vezes, quando nos encontrávamos em reuniões, ele me chamava de ‘’my brazilian sister!’ – minha irma brasileira. Eu aprendi que respeito nos permite ter irmãos e irmãs em todas as partes do mundo”, continua. “Eu acredito que política é algo que todos nós fazemos todo dia, a todo momento. Estamos sempre negociando quem vai ter poder sobre isto ou aquilo; fazendo política doméstica, local, estadual ou nacional. Consequentemente, política tem que ser encarada como algo normal, que todo mundo faz, em casa, na igreja, na escola, no partido político. Não tem jeito de fugir da política. Podemos tentar nos enganar e dizer que não fazemos política. Not true!”

Engajada em movimentos em defesa dos direitos das pessoas, Marcia enfatiza sobre a importância de que se deve envolver com a sociedade em que se vive e influenciar o meio ‘all the time’. “Nesse sentido, eu penso que as pessoas têm que deixar de iludir-se e dizer que não fazem politica e abraçarem a possibilidade de participar na vida da sua comunidade e contribuir para melhorar a vida de todos. Votar é essencial. Conhecer os candidatos e suas plataformas, aprender sobre legislação e as possibilidades de engajamento político e social. Creio que já é mais do que tempo de que todos nós tenhamos voz ativa nas nossas comunidades. Se estamos vivendo nos Estados Unidos, pagando impostos aqui, indo nas escolas daqui, trabalhando neste país, temos mais é que nos envolvermos com a realidade do país onde vivemos. VOTAR para os candidatos que vão apoiar as nossas causas aqui. Não concordo com a ideia de ter um pé lá (no Brasil) e outro aqui. A nossa participação é essencial e pode mudar muitas coisas. Aprender a língua é outra necessidade. É preciso sair da sua ‘comfort zone’’ e participar. Acredito piamente no respeito ao outro/a. Independentemente de quem você seja, sua nacionalidade, raça, educação, orientação sexual, situação financeira, você é um ser humano. Respeito é como um boomerang, vai e volta”.

“Aprendi, através da minha experiência de vida, que família pode ser muito mais do que os seus parentes imediatos. Quando você abre as portas do coração e da mente para receber novas pessoas, a sua família aumenta de maneira incrível e você se torna cidadão/a do mundo. Tenho amigos em todos os lugares do planeta. Eles e elas fazem parte desta ‘’extended family’ com que eu posso me comunicar e conectar a qualquer momento. Minha família ‘de casa’ (marido e filhos) é o suporte, a fonte de motivação e sustento. O relacionamento que tenho com a minha família, o amor e compreensão que existe entre nós me leva a compartilhar experiências positivas com membros da minha família maior. Ser cidadão/a do mundo começa em casa”, finaliza.

Fotos: acervo pessoal

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