PICARETAGENS e espertezas contra recém-chegados

Em Massachusetts ninguém pode ganhar menos do que US$ 11 por hora

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É notório que mesmo com todo o aperto imigratório da administração Trump, imigrantes continuam chegando em busca de uma vida melhor e mais digna. Via de regra, os recém-chegados as vezes não se dão conta de quem não conhecem como funciona as coisas nos Estados Unidos, e muitas vezes são enganados por gente que se aproveita da vulnerabilidade deles e pouco se importam com o que pode acontecer.

As narrativas a seguir fazem parte de uma gama variada de espertezas e picaretagens de pessoas que acham que por estar há mais tempo nos Estados Unidos podem se valer de pessoas que só querem ganhar a vida honestamente, mas que acabam enganados e desiludidos como veremos a seguir. Os nomes foram trocados a pedidos e muitas destas histórias circulam em casos semelhantes nas redes sociais. Em Boston há muita gente boa e disposta a ajudar outras pessoas, mas há também muita picaretagem e esperteza…

Diária de US$ 50
Marly chegou de uma pequena cidade do Espírito Santo no dia 27 de abril junto com o namorado com a ideia de trabalhar e juntar dinheiro para o casamento. Dois dias depois de chegar arrumou um trabalho como helper que alguém lhe indiciou em Framingham. “Sai de casa por volta das 7 da manhã e voltei as 8 da noite. A mulher que me pegou para ajuda-la tinha a companhia de outras duas e juntas limpamos cinco casas, algumas delas com três banheiros. Nunca trabalhei tanto na vida e na volta ela me deu US$ 50 como pagamento e ela disse que ia me pagar este valor por que eu estava começando, sem experiência, estava aprendendo e que o certo era ela pagar US$ 30, mas estava me dando a mais, porque me achou ‘legal’. Como eu não havia combinado nada com ela, achei que é a prática local. Ela nunca mais me chamou e dias depois fui trabalhar com outra mulher. Na primeira semana trabalhei terça, quarta, quinta e sexta-feira, limpando pelo menos três casas por dia e ela me pagou US$ 200. Na segunda semana, trabalhei três dias e recebi US$ 220. Na casa onde estava hospedada me disseram que eu tinha que receber pelo menos US$ 11 por hora, e quando reclamei, ela me disse que estava ajudando, apoiando, ensinando o trabalho e que por isso não ia me pagar o mínimo, já que ninguém trabalha deste modo. Também não podia parar para comer, pois ela me disse que as donas das casas podiam reclamar de me ver parada e que as recém chegadas não podiam parar para nada”, diz. Marly foi para o Cape Cod onde ganha US$ 15 por hora.

‘Seu trabalho vale US$ 7, mas vou te pagar US$ 9’
João chegou há três meses e logo estava trabalhando como pintor, e mesmo não tendo experiência saiu-se bem e um dos seus colegas o indicou para um outro sub-empreiteiro tão logo acabou aquele serviço. João se deu conta de que não tinha experiência suficiente para o novo trabalho, mas mesmo assim continuou. “A forma de pagamento era quinzenal e o cara que havia me contratado pediu as minhas horas e disse que não concordava com elas, mas eu havia trabalhado o mesmo que os outros. Eu o enfrentei e ele me xingou, mas não contestou mais. Fiz as contas e estimei o valor que deveria receber, e me surpreendi quando ele me fez o pagamento com cerca de US$ 380 a menos do que realmente devia receber. Quando reclamei, ele me disse que meu serviço valia US$ 7 a hora e que me faria o favor de pagar US$ 9 por hora. Disse isto na frente de todo mundo e passei a maior vergonha. Fiquei indignado e argumentei que não tinha tanta experiência para aquele tipo de serviço, mas mesmo assim ele me deixou ficar. Me disse que era pegar ou largar e que se eu fosse reclamar não ia conseguir nada mais do que aquilo que ele estava me pagando. Sai dali furioso, porque ninguém falou nada em minha defesa. Trabalhei de graça para aquele sujeito que me roubou na cara dura”, diz João que atualmente trabalha em uma companhia de landscape.

Dinheiro para o aplique no cabelo
Soraia ficou viúva quando estava grávida de cinco meses, depois que seu marido, um policial militar foi executado na porta de casa no Rio de Janeiro. Deixou o bebê, um menino com quatro meses com a mãe e veio morar com uma prima no South Shore, indo trabalhar como helper da dona de um schedule, indicada por sua prima que trabalha em uma loja brasileira. “Ela me pagou direitinho e eu falei que tinha uns dólares guardados para qualquer emergência, que na realidade era um pouco do dinheiro que havia trazido para me manter por aqui. Um dia quando estávamos voltando ela arrumou uma choradeira no carro e disse que tinha uma emergência no Brasil e que precisava de dinheiro e me perguntou se eu podia emprestar US$ 850 para ela. A história dela me convenceu e emprestei para ela me pagar em duas semanas. Só que eu descobri que não havia emergência alguma e que ela usou o dinheiro para colocar uma extensão no cabelo, já que tinha uma festa para ir e queria estar ‘linda’. Quando cobrei ela me deu um cheque e me dispensou porque não gostou de ser cobrada e desmascarada. Fui descontar o cheque e não tinha fundos e aí começou a minha batalha para receber o dinheiro. Ela me disse que era cidadã americana e que ia chamar a Imigração para mim e eu seria deportada, fazendo da minha vida um inferno. Quem me ajudou a receber foi a esposa do pastor da igreja onde eu estou frequentando e que enfrentou a mulher e a fez pagar tostão por tostão. E para ela pagar um mico maior ainda, descobri que nem gren card ela tem…”, afirma.

Na rua em pleno inverno
“Cheguei em Boston no mês de dezembro e fui buscado no aeroporto por um cara que anuncia nas redes sociais, um serviço de assessoria. Ele me colocou em uma casa com um monte de gente e que não batia com o que eu havia combinado. Tudo o que eu ia fazer com ele tinha que pagar, mesmo que já tivesse teoricamente pagado a ele antes de chegar. Três semanas depois ele me disse que eu tinha que ir embora da casa e no dia seguinte me colocou para fora mesmo que eu tivesse dinheiro para pagar pela minha estádia. Ele não me queria mais na casa porque eu estava reclamando e que ia deixar uma má impressão para os que estavam chegando. Sem conhecer nada e sem trabalho fui para uma padaria brasileira em Everett e lá contei a minha história para uns caras que me ajudaram e me levaram para a casa deles. Eles foram legais comigo e me ajudaram bastante. Tenho um trabalho e me mudei daquela casa para um quarto que aluguei. Me senti lesado, mesmo porque o cara que me ‘assessorou’ na realidade me roubou de boa, e o pior é que ele continua fazendo propaganda nas redes sociais. Para mim ele é um picareta de marca maior, que continua enganando muitas pessoas como eu”, diz Roberto.

Como se prevenir?
O blog perguntou a Danielle Villela, Coordenadora do Projeto de Direitos Trabalhistas do Centro do Trabalhador Brasileiro sobre salários e pagamentos de verbas trabalhistas. Confira as suas respostas a seguir.

Qual é o valor do salário mínimo no Estado?
O salário mínimo no Estado de Massachusetts é de US$ 11 por hora.

Este valor é válido para qualquer profissão que não seja garçons?
O valor de US$ 11 por hora são para todas as profissões, porém as profissões que recebem gorjetas como garçons, delivery e outras, o salário mínimo é de US$ 3.75, devendo chegar a pelo menos US$ 11 por horas somado com as gorjetas. Caso as gorjetas somadas ao salário mínimo não cheguem a US$ 11 por hora, o empregador é obrigada a completar esse valor.

Uma house cleaner tem o salário diferenciado?
Uma house cleaner não tem o salário diferenciado. Ela deve ganhar no mínimo US$ 11 por hora pois desde de junho de 2014 elas foram incluídas nas leis trabalhistas do Estado de Massachusetts, sendo então reconhecida como uma profissão.

Uma house cleaner que trabalha mais de oito horas por dia e recebe uma diária de US$ 50, o que ela deve fazer?
Deve ir ao Centro do Trabalhador Brasileiro, para podermos abrir um caso trabalhista contra esse empregador.

Qual é o telefone para reclamar com vocês ou onde mais a pessoa pode reclamar?
O telefone do Centro do Trabalhador Brasileiro é 617.783-8001. Estamos abertos de segunda a sexta feira das 10 AM às 4 PM. O trabalhador também pode fazer uma reclamação trabalhista no site da Procuradoria do Estado clicando aqui, que irá investigar a companhia onde a pessoa trabalhou.

A terceira opção seria abrir o caso na corte de Pequenas Causas, caso o valor a receber seja menor do que US$ 7 mil. O trabalhador não precisa de advogado para abrir uma queixa na Corte de Pequenas Causas, ele pode ir na corte, pegar e preencher o formulário e abrir o caso no mesmo dia.

1 COMENTÁRIO

  1. Não só nesses casos, mas a compra de um carro velho aqui me deu um trabalho danado. Comprei, paguei, e quando fui passar na tal sticker, não passou, entrei em contato com quem me vendeu, mandou EU pegar 80 dollars e ir em “qualquer” garagem que eles “passavam”, isso não existe, perdi a amizade, perdi o dinheiro, perdi o carro que o motor era Uma bomba, e quem ficou por ruim fui EU. Aprendi, nunca mais compro carro “bomba”.

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