Os dramas dos récem-chegados

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Quando embarcaram em um avião no Aeroporto Santos Dumont em agosto do ano passado com destino a Dallas, Texas, nem de longe Patricia e Rogério tinham ideia do que iam enfrentar. Rogério queria ao menos ter o mesmo êxito e sucesso do primo Felipe que há 15 anos deixou o conforto da vida de classe média em Vitória e veio para os Estados Unidos, onde se casou com uma americana, teve filhos e tem um emprego estável.

No início do ano passado, Rogério perdeu o trabalho de muitos anos como chefe em uma multinacional e depois de procurar emprego por três meses viu que não ia dar para ganhar o mesmo salário e aos 39 anos, constatou que era ‘velho’ para o mercado de trabalho. “Eu e minha esposa conversamos bastante, e decidimos vir para a América com nossos dois filhos de 10 e 12 anos. Conversei com meu primo, que me alertou para todas as dificuldades que iria enfrentar, visto que teria que trabalhar em sub-empregos, que minha esposa não ia encontrar trabalho como bio-química. Ele disse também que estava enfrentando um período de turbulência no casamento dele e que poderia nos acolher por no máximo dois meses. Pesamos todas as variáveis e resolvemos tentar a vida. Ao chegar, nos hospedamos com meu primo e não deu para ficar lá mais do que 15 dias. Juntou as nossas crianças com as três dele e mais o ambiente ruim da casa e não tivemos como permanecer. Ele arrumou um lugar para ficarmos em Everett com um amigo dele. Arrumar trabalho foi um outro drama. Eu sempre trabalhei em escritório e minha mulher em um laboratório. Fui trabalhar na construção e ela como help. Tinha noites em que chorávamos o tempo todo. As crianças não se adaptaram na escola e tudo parecia muito difícil. Quando conversávamos com nossos familiares no Brasil as coisas pareciam piorar. Quando fui receber o pagamento, quem me contratou não pagou o que havia combinado pois disse que eu não havia trabalhado direito. Só que eu avisei que ele teria que ter paciência comigo. Foi um stress e não fiquei neste trabalho. Arrumei um outro trabalho, desta vez como pintor e me dei bem, pois os colegas tiveram paciência e logo estava fazendo as coisas direito. Com o pouco dinheiro que tínhamos comprei um carro usado que depois descobri que era caro demais. Enfim, uma saga. Hoje, já estamos adaptados e as coisas começam a se ajeitar, mas falando com sinceridade, acho que se soubesse o que iria passar, não teria vindo para cá não”, diz Rogério.

Todos os dias chegam novas pessoas em busca de trabalho e de uma vida mais digna e a constatação é geral. Já, Silvio, irmão de Jorge veio, ficou quatro meses e a gota d’água foi ser parado pela polícia de Revere por causa de uma luz da lanterna queimada, ter sido preso, o carro guinchado e de ter ido parar na corte. “Meu irmão é um homem honrado e aos 46 anos ter sido preso por causa de uma banalidade na opinião dele foi a pior experiência que ele passou na vida. Ele presidiu um capítulo do Rotary Club na cidade onde mora, é respeitado e no dia seguinte à audiência na corte comprou a passagem e foi embora e disse que nunca mais pisa nos Estados Unidos. Minha cunhada até queria ficar, mas ele foi irredutível e disse que prefere começar de novo no Brasil a se submeter a constrangimentos aqui”, disse Jorge. “Cada um tem o seu limite e sabe até aonde pode ir. Quando cheguei há mais de 20 anos, as necessidades e a tolerância eram outras, hoje vejo pessoas chegando e querendo escolher trabalho, o que não foi o caso do meu irmão. Tem também muita pilantragem de gente se aproveitando de quem chega e não sabe de nada”, finaliza.

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Liliane Costa é diretora executiva do BRACE – Brazilian American Center em Framingham. Foto: arquivo pessoal

“A necessidade destas pessoas na maioria das vezes é moradia e emprego. São famílias inteiras compostas de pais e filhos, as vezes menores de idade. São pequenos empresários ou profissionais que tem vistos de turismo ou de negócio. É muita gente e sei de escolas que já não mais estão admitindo novos alunos por falta de espaço e de vagas. O lado bom é que na maioria das vezes conseguem trabalho rápido, pois aqui no BRACE mantemos um cadastro destas pessoas e a cada 15 dias fazemos um monitoramento das aplicações e constatamos que as pessoas estão trabalhando, pois aqui quem quer trabalhar arruma emprego. Há também um drama que são os que se arriscam em vir pelo México. São famílias inteiras, muitas vezes de pessoas que estão retornando para os Estados Unidos depois de ter vivido aqui. Outro dia atendemos uma família com dois filhos, sendo que um deles é cidadão americano de nascimento e disseram que quando o oficial de imigração os deteve e constatou o fato, ficou furioso. Estas pessoas são obrigadas a colocar tornozeleiras eletrônicas e são monitoradas por GPS. Elas precisam trabalhar, e quando quem dá trabalho descobre isto, manda embora pois tem medo de se envolver com a Imigração. Estes que são monitorados, precisam de ajuda financeira, de comida e de suporte e dentro das nossas possibilidades buscamos de algum modo prestar ajuda e amparo”, diz Liliane Costa, diretora executiva do BRACE – Brazilian American Center em Framingham.

Publicada originalmente no Jornal dos Sports USA. Imagem de capa meramente ilustrativa

 

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