O avanço do racismo

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Em meados dos anos 90 uma grande fome se abateu sobre parte da população do Sudão e o mundo civilizado se mobilizou enviando para lá comida, remédios e roupas em quantidade suficiente para abrandar o sofrimento dos sudaneses que morriam a míngua. Só que os esforços da comunidade internacional foram em vão, pois a ajuda foi desviada e toneladas de alimentos apodreciam diante de todos.

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Desde sempre, no Sudão, quem tem o comando oprime o que é subjugado sem o menor pudor

Uma equipe de reportagem da BBC de Londres foi fazer uma série de reportagens sobre a guerra civil, e perguntou para um coronel o porquê de haver montanhas de comida de um lado e do outro lado da cerca mulheres e crianças padeciam sem se beneficiar com a comida que estava ali diante deles. Um sorridente e cínico coronel perguntou ao repórter se ele daria comida para o seu inimigo, para em seguida dizer que aqueles que morriam de fome do outro lado da cerca fariam o mesmo com ele e os seus amigos, se estivessem no poder. Logo, no ponto de vista dele, eles que morressem o mais depressa possível. As razões do coronel sudanês eram justificadas pelas mortandades proporcionadas no passado por brigas ferozes entre as diversas tribos e povos; a diferença é que desta vez aconteciam diante dos olhos do mundo todo, que impassível nunca moveu um dedo para acabar com a tragédia.

Uma das marcas e características dos séculos 20 e 21 é a intolerância racial e religiosa, marcada por tragédias e atentados terroristas. Com o fim do comunismo e da União Soviética, os países da Cortina de Ferro entraram em colapso e buscaram a independência a qualquer custo. Um destes países foi a Iugoslávia que se dividiu e de lá saíram a Macedônia e a Croácia e Bósnia-Hezergovina, que se tornaram independentes. Só que os anos de convívio geraram rancores e o conflito foi inevitável, pois no caldeirão que era a Iugoslávia viviam lado a lado civis muçulmanos, cristãos, católicos, croatas, bósnios, kosovares, albaneses e ciganos que foram executados a sangue frio na que foi chamada de limpeza étnica incentivada pelo presidente sérvio Slobodan Milosevic.

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Slobodan Milocevic morreu sem ser condenado pelos crimes étnicos que cometeu

A imprensa denunciou o fato à exaustão e todos – inclusive os Estados Unidos – preferiram ignorar os fatos e crer nas palavras de Milosevic que dizia não haver conflito algum. Para se ter uma idéia do processo todo, os soldados ou milícias sérvias invadiam aldeias e violentavam mulheres de todas as idades. As atrocidades contra as mulheres eram tamanhas que em 1992 na cidade de Kalinoviky, um grupo de milicianos invadiu um ginásio onde estavam presas 105 mulheres e durante 26 dias estupraram cada uma delas dia e noite.

Os relatos das atrocidades eram contados ao mundo por telefone celular, e mesmo assim, as grandes nações fizeram de conta que não estava acontecendo nada demais. Com arrogância, Slobodan Milosevic desafiava que provas fossem apresentadas, e dizia ter o apoio de, entre outros, Bill Clinton com quem falava regularmente.

Milosevic que ficou conhecido como o Carniceiro dos Balcãs, morreu quando estava sendo julgado por um tribunal em Haia, na Holanda por genocídio, tese que foi provada com a descoberta de covas coletivas onde muitos dos corpos tinham tiro na nuca. A cruel ironia desta história, é que Milosevic foi indicado para receber em 2000 o Prêmio Nobel da Paz.

Mas, o mundo não aprendeu a lição e uma outra matança desta vez em Ruanda aconteceu e ninguém tomou providência alguma. Na primavera de 1994 os hutus massacraram em quatro meses 1 milhão de tutsis, a quem chamavam de baratas – novamente um conflito tribal e étnico – os tutsis e alguns hutus moderados foram mortos com tiros, facadas, espancamento e com golpes de machado, e a caçada foi a responsável pelo maior deslocamento de pessoas em tempos de paz – cerca de dois milhões de tutsís se refugiaram no Zaire.

Quando o conflito começou a ONU tinha no país um contingente de aproximadamente 2,5 mil soldados que foram reduzidos para meros 270 militares. Diante dos apelos de lideranças ruandesas que apelaram diretamente ao secretário-geral da ONU e ao Conselho de Segurança que não retirassem as tropas de lá. Quando Kofi Annan, ordenou que 5,5 mil soldados da força de paz voltassem a Ruanda já era tarde e nada mais podia ser feito. O conflito entre tutsis e hutus foi retratado no filme Hotel Rwanda, e uma das cenas mais chocantes é quando Paul Rusesabagina, considerado um herói por ter livrado da morte tutsis, volta de uma viagem e o carro não consegue andar pela estrada sem derrapar ou sair da pista. Ele ordena que o motorista pare o carro e desce para ver o que atrapalhava o carro de andar normalmente e se depara com milhares de corpos mutilados espalhados pela estrada.

Os conflitos entre hutus e tutsis sempre existiram, mas eram controlados por líderes moderados de ambos os lados, até que o avião que transportava o presidente Juvenal Habyarimana – um hutu moderado que conseguia transitar e dialogar com os dois grupos e era aceito pelos tutsis – caiu e os hutus acusaram os tutsis de conspiração e assassinato, e partiram para a retaliação, numa matança que será lembrada por muito tempo.

Racismo 3
Ratko Mladic e Radovan Karadizic formaram uma das mais violentas duplas de carniceiros. Karadizic foi absolvido das acusações de ter mandado matar 8 mil homens e meninos muçulmanos

Já o massacre de Srebrenica onde os sérvios assassinaram 8 mil homens e meninos muçulmanos em julho de 1995 foi a maior atrocidade cometida na Europa despois da II Guerra Mundial. O genocídio foi planejado pelo ex-líder político dos sérvios da Bósnia, Radovan Karadizic e seu proposto militar Ratko Mladic. Karadizic foi absolvido pela Corte de Haia em junho de 2012.

Existe ainda o terrorismo como forma e modo de coação e de convencimento, matando cada vez mais a cada nova explosão. O terrorismo, aliás, fez com que o mundo jamais fosse o mesmo. Se antes os atos terroristas eram circunscritos a determinadas regiões específicas, hoje atravessou fronteiras e se globalizou letalmente, e quanto mais baixas civis forem impostas, mais heróico aos olhos do fanáticos o feito é notório. Os amigos do passado, como o finado Osama bin Laden – financiado e abastecido na Guerra do Afeganistão, quando os inimigos eram os russos e o comunismo, são hoje, viscerais inimigos, cujas cabeças são avaliadas em milhões de dólares, mas que são invisíveis tal qual fantasmas.

E assim de tragédias em tragédias cada vez mais inexplicáveis é que o mundo vai caminhando num passo cada vez mais apressado. Para muitas coisas não há retorno, e o terrorismo como instrumento de ódio e rancor é uma destas modalidades onde os mortos serão contados no futuro aos milhares num vértice e o racismo, preconceito e xenofobia no outro.

Racismo 1
Cínico e dissimulado, Edgar Ray Killen foi condenado pelo assassinato de três ativistas dos direitos civis

Mesmo nos Estados Unidos há tensões raciais que volta e meia são lembradas por todos. Em junho de 1960, um grupo de fanáticos racistas da Ku Klux Klan, matou no Mississippi, três ativistas dos direitos dos negros, e depois de investigações do FBI foram presos e condenados a penas variadas. Em junho de 2005, o líder do grupo Edgar Ray Killen, na época com 80 anos, foi condenado a 60 anos de prisão. Ex-pastor batista e nem um pouco arrependido Killen mostrou arrogância ao ser levado da Corte para a prisão estadual numa cadeira de rodas, e seus amigos declararam que ele se sentia injustiçado pela medida. Dias depois, foi libertado da prisão mediante o pagamento de uma fiança de US$ 600 mil, devidamente arrecadada por amigos e por pessoas que pensam exatamente como ele pensa – que os negros tem de ser exterminados, como foram os ativistas em 1960.

A intolerância e o ódio são binômios letais que andaram juntos no passado, andam no presente e estarão de mãos dadas no futuro. Serão sempre os argumentos que permitirão matar impunemente como nos Balcãs, em Ruanda; nos atos terroristas e até darão as razões que os racistas do Mississippi desde sempre buscaram e somente não o fazem hoje por causa da pesada mão da lei que os esmagou e está alerta para os açoitar quando necessário for.

O que choca mesmo é sorriso de escárnio do coronel sudanês perguntando ao mundo qual deveria ser a sua atitude com o seu inimigo? Ou ainda o olhar agressivo e contundente de Slobodan Milosevic desafiando a todos detrás das grades onde esperava da sentença pelos seus crimes que jamais chegou, ou ainda a sanha assassina dos hutus que não pararam de matar enquanto existia um tutsi para ser abatido tal como uma barata; e o que dizer do riso sarcástico de Osama bin Laden a cada atentado que levava a assinatura da sua macabra rede? Será que é pior do que o debochado de Ray Millen, afrontando o júri como que dizendo – eu mandei matar uns pretos sim, e daí? Mataria mais se fosse possível.

É o que demonstra a atitude dos que financiaram a sua liberdade. É o recado silencioso e agressivo que eles mandam para a sociedade. Pagaram para que Killen saísse da prisão não por motivos humanitários, e sim porque se identificam com os seus atos e opiniões. Em 2005, Killen foi recolhido para cumprir a sua pena de 40 anos por decisão da Corte Suprema do Estado do Mississippi.

Racismo 8
A imbecilidade da vez chama-se neonazismo que avança pela Europa a passos largos e cuja pregação é de ódio contra o diferente

Na Europa cada vez mais partidos nacionalistas avançam a cada nova eleição e o neonazismo que mostra a sua face medonha com uma frequência cada vez mais assustadora. Falam abertamente em tirar de alguns países como a Alemanha todos os estrangeiros sem o menor pudor ou constrangimento. Talvez seja esta a nova ordem mundial. Aliás, uma sombria maneira de manifestar o ódio, o preconceito, a xenofobia pelo estrangeiro, pelo que tem a cor da pele diferente e que não enxerga nada além da própria ignorância e maldade.

No vídeo acima Mo Asumang, filha de pai ganês e mãe alemã resolveu corajosamente confrontar racistas e neonazistas na Alemanha e sua abordagem virou um documentário que teve o apoio da BBC News. Mo deixa alguns deles sem respostas às suas perguntas e questionamentos.

 

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