Imigração: ‘O dia em que resolvi ficar…’

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Neste depoimento sobre imigração da série feita especialmente para o Jornal dos Sports em 2013, histórias emocionantes foram contadas. O depoimento de JS – que teve seu nome omitido a pedido, que veio para passar férias e acabou ficando de vez. JS casou e separou em cinco meses. Deste casamento nasceu Laura e cansado de esperar por uma reforma de imigração ou uma ação do presidente Obama, depois de três anos de namoro, casou-se com uma brasileira que é cidadã americana.

‘Não vim para ficar, mas acabei ficando’

Quando desci do ônibus na South Station em Boston chovia desesperadamente e fiquei ali esperando pelo meu primo por muitas horas. Na minha longa espera me perguntei o que estava fazendo aqui já que tinha uma profissão e um bom salário no Brasil. Realmente não precisava ter vindo para os Estados Unidos e como tinha férias acumuladas fiz um acordo com a empresa e juntando férias e uma licença que daria seis meses que era o prazo da permanência. Na realidade eu estava fugindo de uma desilusão amorosa e queria esquecer a minha ex-namorada que havia se casado com o meu melhor amigo. Trouxe uma mala com umas peças de roupa e nem de longe me passava pela cabeça a idéia de ficar por aqui. Tão logo me estabeleci, meu primo soube que em Chicago era possível tirar o social security e me chamou para ir junto e mesmo que não soubesse a importância daquele documento fui assim mesmo e hoje não me arrependo nem do gasto e muito menos de ter ido lá tirar o social security. Como não precisava trabalhar já que tinha umas economias fui conhecer museus tanto em Massachusetts quanto em New York e foi num destes passeios que conheci a Cindy, uma americana e logo começamos a sair. Três meses depois ela me disse que estava grávida e que a criança era minha. Confesso que fiquei apavorado com a iminência de me tornar pai, ideia que jamais havia me ocorrido e decidimos nos casar pouco depois. Bem, o casamento durou exatos três meses e as confusões entre a gente era tanta que nem deu tempo de entrar com o pedido de green card. E quando nasceu a Laura, a nossa filha decidi de vez que iria ficar e nesta altura já trabalhava num restaurante famoso e com o passar dos anos fui subindo de posição e melhorando o meu salário. Cumpro com as minhas obrigações de pai e pago religiosamente a pensão da Laura e a vejo todos os finais de semana e quando viajo dentro dos EUA e posso levá-la ela vai comigo. Hoje, eu a Cindy somos amigos e ela se casou de novo com um brasileiro que também é meu amigo e o tempo mostrou para nós que jamais deveríamos ter nos casado. Estou noivo de uma brasileira, que é cidadã americana há três anos e estamos esperando para nos casarmos. Se tenho alguma frustração? Não, não tenho nenhuma a não ser a decepção de não ter podido me despedir do meu pai e da minha mãe quando morreram, mas isto faz parte da vida. Tenho muitas alegrias e a maior delas é a minha filha. Aproveitei todas as oportunidades que surgiram para mim e meus empregadores já adiantaram que fazem questão de pagar integralmente o meu processo, custe o que custar. Nestes quase 12 anos de América, pude sentir e ver que o trabalho, o esforço e a dedicação além de andar e fazer as coisas corretamente é a chave de tudo para alcançar uma estabilidade social e financeira, aprendi também que a falta de documentos não é desculpa para cair no erro e jamais vou esquecer o dia que decidi ficar de vez nesta terra tão abençoada e acolhedora. Um dia, passeava por Boston e me sentei nas escadas da entrada da Cathedral of the Holy Cross, agradeci a Deus e decidi que aqui é o meu lugar”.

Depoimento de JS, fluminense de Niterói que chegou nos EUA em 2001.

Atualização: JS casou-se no início de 2015, já tem o seu green card, tem um filho e não pensa em ir embora

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