Imigração: ‘Minha tragédia se tornou em bênção’

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Da série de depoimentos sobre imigração que o Jornal dos Sports publicou em 2013, estava o de Juan de los Santos, um imigrante de El Salvador que mora na Flórida. Em 2001, um terremoto naquele país provocou mortes e destruição, e Juan foi um sobrevivente. Confira o seu testemunho

‘Minha tragédia se tornou em bênção’

Pouco menos de um mês do melhor natal que já passara na vida junto com o seus parentes, Juan, o Juanito viu seu mundo desmoronar literalmente com o maior terremoto da história de El Salvador. Aos 15 anos de idade, Juan perdeu parentes e amigos no terremoto e ficou soterrado por horas até que fosse localizado por uma equipe de resgate. Na tragédia morreram os pais, dois irmãos, dois tios e três primos, além de amigos e conhecidos. Era janeiro de 2001 e tão logo se recuperou dos ferimentos que incluíam um braço e uma perna quebrados, perguntaram a Juan se ele queria vir morar nos Estados Unidos com uma tia. A sua pergunta foi se podia levar Anita, a irmã caçula e assim foi feito. A tia, que naquela época era cidadã americana adotou os dois e em novembro de 2001 desembarcaram em Miami para uma nova etapa de vida. Se em El Salvador a grande recomendação dos seus pais era manter-se longe dos problemas e da temida MS 13 – gangue de nome Mara Salvatrucha que impõe medo pela extrema violência, em Miami, a tia não fazia restrições de nada e Juan teve que se virar e ter forças para não ser engolido ou levado para o caminho do mal. Depois de terminar o high school não quis continuar os estudos ao contrário de sua irmã e foi trabalhar com Jack, marido da sua tia numa garagem de carros onde aprendeu a consertar motores e parte elétrica. Teve também chance de ir para as forças armadas mas não quis sair de perto da tia e da irmã. ‘Voltei a Salvador em 2011 e não tive coragem e disposição para ir até onde ficava a nossa casa e voltar lá me trouxe más recordações e muita tristeza e lembro dos conselhos dos meus pais para que não me misturasse com as pessoas más e foi o que fiz’, disse. Em agosto de 2012, Jack foi diagnosticado com um câncer e resolveu deixar para Juan o seu negócio, já que os filhos dele do primeiro casamento não queriam tocar a empresa e mesmo depois de ter-se curado decidiu que não ia mais trabalhar. ‘Sei que mesmo naquela tragédia onde perdi quase toda a minha família, tive a sorte e a bênção de ter uma tia que se dispôs com seu marido a acolher a mim e a minha irmã e mesmo naqueles instantes onde era perseguido na escola por não falar inglês direito, eu persisti e não cometi nada que pudesse envergonhar a memória dos meus pais e a honra da família. Sou tão abençoado que aos 28 anos tenho um negócio que herdei do meu tio e que tenho certeza vai continuar sendo próspero e nunca me senti um refugiado aqui, sou um imigrante que vim para cá por causa de uma tragédia e fui abençoado nesta terra. Optei por não estudar e investi na minha irmã que deve ir estudar em Boston ou New York e é isto o que me realiza, tudo o que sou devo aos meus tios que me acolheu e também a memória dos meus pais’”.
Juan de los Santos é de El Salvador e mora no Estado da Flórida na região de Pompano Beach.

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