IMIGRAÇÃO: ‘Deus abençoe todos os imigrantes nos Estados Unidos’

Saber enfrentar as dificuldades é um grande passo para o sucesso

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Carolina e sua mãe não tiveram outra alternativa a não ser fugir para os Estados Unidos, pois do contrário morreriam, como morreram seu pai, seu irmão, um tio e quatro empregados. Os assassinos dos sete estão impunes até hoje e tanto Carolina quanto sua mãe refizeram suas vidas e lutaram contra o desânimo e a depressão. Carolina estudou em uma grande universidade e se tornou advogada criminalista para honrar a memória dos seus parentes que morreram. Este depoimento foi publicado originariamente no Jornal dos Sports numa série especial de imigração em 2013. O nome de Carolina foi alterado a pedido dela para sua preservação da sua identidade.

‘Aqui não vão nos achar’

Por causa de uma disputa comercial com uns parentes, meu pai, um irmão e um tio foram assassinados e não restou outra possibilidade que não fosse fugir do Brasil com minha mãe deixando tudo para trás para não morrer também. Ainda hoje e volta e meia recebemos recados raivosos de que se um dia pisarmos no Brasil vamos morrer e por isso não vamos arriscar. Três anos depois que chegamos, mamãe se casou com um funcionário do governo, mas não pude me beneficiar porque já havia passado da idade limite e o marido dela se tornou o meu pai aqui na América e os dois filhos dele, os meus irmãos e formamos uma família muito unida e apegada. O nosso primeiro ano aqui foi duro e terrível pois não tínhamos onde residir e moramos em seis lugares diferentes até que nos ajeitássemos e trabalhamos em diversos serviços e Deus nos ajudou e depois deste período nos estabilizamos e mesmo assim as dificuldades foram imensas e penei um pouco para aprender o inglês e no começo sentia saudades das minhas amigas, do meu pai, do meu irmão, das minhas coisas, da comunidade que freqüentava e tive que tratar de uma depressão. Mas aos poucos fui me adaptando, fui fazendo algumas amizades, descobri uma nova comunidade católica e hoje posso dizer que as coisas caminham de modo interessante, freqüentar o high school foi importante para mim porque desenvolvi bem o inglês e fiz novas amizades. Trabalho na empresa de um dos meus irmãos postiços e cursei a universidade já que me enquadrei no Ação Deferida e meu processo foi aprovado. Decidi que quero ser advogada criminalista para com isto honrar a memória do meu pai, do meu irmão e do meu tio que foram mortos com brutalidade e até hoje os assassinos estão impunes pois a polícia não deu nenhuma importância e sequer investigou quem tinha que ser investigado. Mas não quero fazer destas tragédias uma forma de viver e sim de reverenciar quem morreu. Faço trabalho voluntário numa entidade que ajuda familiares de vítimas de crimes violentos e lá há gente de todo tipo e onde a minha história é nada diante de tanta dor, pois há pessoas que perderam toda a sua família, já que na maioria são imigrantes como eu. Mas o jeito é superar a dor e seguir em frente. É a primeira vez que falo sobre este assunto em anos e nossos amigos não sabem do nosso drama familiar e o que nos ajudou a superar as adversidades foi o apoio do marido da minha mãe, dos seus filhos e das suas noras que nos tratam bem, nos ajudam nas nossas horas de desânimo e saudades e nos dão a certeza de que aquelas pessoas más lá do Brasil não vão nos machucar aqui. Minha mãe nem pensa em ir ao Brasil, pois tem medo de que algo de ruim aconteça com ela. Rezo todos os dias para este país, para a minha família, para a minha mãe e para as autoridades. Desculpe as palavras erradas no português e espero que alguém corrija por favor, pois acho que estou enferrujada para escrever direito – risos. Deus abençoe todos os brasileiros que moram nos Estados Unidos”.
Carolina, que veio com a mãe do Mato Grosso do Sul em 2003 depois que o pai, um irmão, um tio e quatro empregados foram mortos numa emboscada em decorrência de uma disputa familiar por herança e negócios.

Atualização: Carolina casou-se em 2015 com Jimmy, um colega de faculdade e atualmente mora no Estado do Michigan, onde seu sogro é dono de uma banca de advogados e se especializou no direito criminal para honrar a memória de seu pai.

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