‘Fui deportado e estava preparado para a vida no Brasil’

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Julio Costa é de Vila Velha, Espírito Santo e morou nos Estados Unidos durante 18 anos. Quando entrou pelo México em 1999 foi capturado pela Imigração e se estabeleceu em New Jersey, onde residiu por quatro anos, até que em uma confusão em um bar com uns amigos, foi preso e quando se constatou que tinha uma carta de deportação pendente foi mandado embora.

Noivo de Esther, uma venezuelana que é cidadã americana, dois meses depois estava de volta aos Estados Unidos e desta vez foi tudo bem e ele passou incólume pela fronteira. Para evitar problemas, casou-se com Esther e veio morar em Massachusetts.

O filho Carlos, nasceu em 2007 e a filha Nadine em 2009 e tudo caminhou bem. A única coisa que não encaixava era o fato de não poder se legalizar por causa da reentrada ilegal nos Estados Unidos.

A vida foi boa, e todos os anos, Esther vinha ao Brasil trazer as crianças para visitar os avós, os tios e os primos. Em uma destas vezes, meu filho disse que queria morar no Brasil porque o lugar dele era lá. Morando em Massachusetts, longe dos amigos complicados, eu prosperei e sempre investi no Brasil, para o caso de uma eventualidade ter com o que nos manter. Graças a Deus ganhei dinheiro com minha companhia e fiz alguns bons investimentos. Mas sempre senti que minha estada nos Estados Unidos tinha um tempo para acabar. O advogado não via nenhuma chance de legalização, mas mesmo assim paguei todos os meus impostos e taxas rigorosamente em dia, tinha uma boa casa, carros novos para mim e minha mulher. Na última vez que minha mulher veio ao Brasil, a minha mãe disse a ela que os nossos dias nos Estados Unidos estavam contados, e que ela tinha a esperança de me ver antes de morrer, pois estava doente. Quando soube daquela história fiquei abalado e me deu uma angústia imensa. Tinha saudades da minha mãe e do meu pai. Quando o Trump assumiu o governo fiquei apreensivo porque sabia que ele ia apertar a questão da imigração e que pessoas na minha situação não teriam a menor chance de permanecer, pois mais dia, menos dia seria mandado embora, não importando a situação que vivia. Ter vida estável, pagar impostos, ser um bom pai de família, cumpridor dos meus deveres de nada adiantaria. E assim foi. No começo de fevereiro tinha que fazer um trabalho em uma agência bancária na região Sul de Massachusetts, e o serviço era a noite e nos finais de semana. Por um descuido de alguém, o alarme tocou e a polícia chegou de imediato. Os policiais pediram documentos de todos e logo constataram a minha situação. Nem sai da delegacia, pois a Imigração foi me buscar e três semanas depois estava de volta no Brasil. Cheguei com a roupa do corpo e mesmo assim, estava aliviado, pois pela primeira vez em muitos anos tive a sensação de liberdade. Meu irmão me pegou no aeroporto em Vitória e fui direto ao hospital para ver minha mãe. Quando sai dali, tive a certeza de que era a primeira e última vez que estava vendo-a com vida. Quando ela me viu, disse que podia morrer em paz. No dia seguinte quando me preparava para ir ao hospital chegou a notícia de que ela havia morrido. Hoje eu entendo que ela estava me esperando para morrer em paz. A Esther chegou com as crianças no início do mês de abril. Vendi a empresa e a casa foi alugada, e ainda estou me adaptando e com o que temos, decidimos que vamos descansar este ano, cuidar das nossas crianças, retomar a vida aos poucos. De tristeza mesmo é a situação da Venezuela, terra da minha mulher. Trouxemos os pais dela para junto de nós e hoje as coisas caminham para a normalidade. Aqui mesmo perto de onde moro, tem outros brasileiros que moraram nos Estados Unidos por muitos anos, foram deportados e não tem um bem ou propriedade sequer. Eu me preparei, fiz um curso superior online na Universidade Católica de Brasília em Boston e tenho um diploma que me capacitou. Um dos meus planos é fazer um mestrado e me preparar para voos mais altos. Lamento mesmo é não ter a minha mãe e tudo o que aconteceu comigo foi a boa mão de Deus me abençoando. Tudo o que tenho agradeço a Deus e aos Estados Unidos”, finaliza Julio que teve o seu nome omitido a pedido.