EFEITOS da pandemia na saúde mental das pessoas

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A importância de cuidar da saúde mental

Definitivamente, a pandemia modificou o comportamento do ser humano e com o fechamento de postos de trabalho, das escolas e também com as restrições impostas pelas autoridades no comércio, nas igrejas e comunidades religiosas entre outras coisas e com isto, as pessoas passaram ter de conviver mais em família ou isoladas e consequentemente, as relações interpessoais foram abruptamente modificadas – em muitos casos para pior. 

As doenças psicossomáticas e os distúrbios mentais explodiram como poucas vezes na história da humanidade. Como conviver com isto? Ou melhor, como ajudar tantas pessoas a tratar e cuidar destes problemas? O blog entrevistou com exclusividade a psicoterapeuta Flavia Feijó que abordou a questão de forma apropriada. Confira a seguir as suas respostas

Quais são os efeitos da pandemia na saúde mental das pessoas?
De uma maneira geral, a atual pandemia tem provocado uma mistura de emoções, muitas vezes envolvendo medo e ansiedade, o que cientistas chamam de COVID Stress Syndrome. De fato, a população está vulnerável ao desenvolvimento de doenças mentais, especialmente pela condição de isolamento. Profissionais de saúde apontam que as pessoas que sofrem de ansiedade clínica e/ou depressão, experienciam um agravamento dos sintomas. Posso afirmar pela minha experiência, que a comunidade imigrante conta ainda com outros fatores de risco além dos citados, como a falta de apoio e benefício que muitos não tem acesso, por estarem no país, indocumentados, e muitas vezes, sem informações. 

Qual é a principal doença mental atualmente?
O Center for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos, aponta em recente pesquisa que 25.5% dos adultos entrevistados apresentam sintomas de ansiedade, enquanto 24.3%, apresentam sintomas de depressão. O Instituto Johns Hopkins afirma que 1 em cada 4 pessoas nos Estados Unidos são diagnosticados a cada ano por algum tipo de distúrbio mental. Dentre eles, o mais comum continua sendo a depressão clínica.

Houve um aumento da violência doméstica na pandemia?
Sem dúvida alguma, está havendo um aumento significativo de violência doméstica – o distanciamento social infelizmente desfavorece as vítimas, que são expostas justamente ao maior contato com o agressor, além de diminuir o acesso aos apoios do dia a dia. O stress emocional causado pela pandemia e o aumento do consumo de álcool, especialmente, são fatores diretamente relacionados a este tipo de violência, podendo ser identificado como abuso emocional, financeiro, físico, entre outros. Inclusive a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o consumo de álcool afeta o corpo e a mente, portanto, o processamento mental e o auto controle. Contudo, é importante lembrar que existe ajuda disponível para as vítimas – seja emergencial, pelo 911, ou por instituições que ofereçam apoio, auxiliam no planejamento e orientam. Dentre elas estão a MAPS – clique aqui para saber onde buscar ajuda caso precise. O Consulado-Geral do Brasil em Boston também oferece um serviço gratuito de orientação, através do Espaço da Mulher Brasileira (EMUB).

Igualmente houve um aumento do consumo de drogas e bebidas alcoólicas?
O número de abusos de substâncias têm crescido assustadoramente – pesquisas apontam que o número de overdoses aumentou em 18%. De fato, o país já vivia uma epidemia de opioides, que coincidiu com a pandemia. Para pessoas que já sofrem com a doença que acomete o abuso de substâncias, o momento tem sido ainda mais crítico para a recuperação, visto que os fatores de risco multiplicaram. Imagino que na comunidade brasileira, possivelmente há um aumento no consumo de álcool, o que, a longo termo, pode trazer consequências sérias, como o vício, e até mesmo outras doenças mentais, que podem passar despercebidas pelo excesso do consumo.

A saúde mental das crianças foi afetada?
A revista Americana Psychiatric Today publicou recentemente um levantamento de várias pesquisas relacionadas à saude mental das crianças e adolescentes e aponta que há indícios de um aumento de casos de depressão e ansiedade clínicas. Particularmente tenho muita preocupação com a saúde mental das crianças, já que socialização contribui não só para a saúde mental mas também para o desenvolvimento deles. Porém, acredito que só poderemos ver maiores impactos em um certo momento após a pandemia. Minha recomendação é observar o comportamento das crianças de perto, e lembrar que, as crianças apresentam sintomas diferentes dos adultos em questões de saúde mental – qualquer mudança no comportamento bem como mudanças no sono, apetite, ou até interação com a família, é importante que seja relatado ao pediatra.

Por que é importante cuidar da saúde mental?
Essa pergunta e tão simples, mas a resposta é bastante complexa. Na minha opinião, se a gente se cuida mentalmente, buscamos uma vida balanceada, consequentemente o corpo agradece. Não consigo ver a mente separada do corpo – o fato é que, os sintomas de saúde mental vão além das emoções; o nosso corpo sente, fisicamente, quando a nossa mente não vai bem. Quando estamos passando por momentos de ansiedade, qual é a parte do seu corpo que sinaliza? No meu caso, tensão nos ombros, que mais tarde virarão dor de cabeça. O fato é que, a saúde mental pode ser preservada, doenças mentais podem sim ser prevenidas e tratadas. 

Quais são as consequências da automedicação e do abandono de tratamentos com antidepressivos?
Doenças mentais devem receber a mesma atenção que as doenças físicas. É necessário acompanhamento de profissionais especializados. A automedicação, portanto, pode ser perigosa, bem como o abandono dos tratamentos, sem orientação profissional.

Qual é a sua orientação para quem foi afetado na saúde mental na pandemia?
Minha orientação é criar uma rotina de auto avaliação, uma vez que estamos, mais que nunca, muito vulneráveis ao desenvolvimento de doenças mentais. Se observar algum desconforto, seja de natureza física ou mental, procure discutir com seu médico. É muito importante que as pessoas, ainda que isoladas fisicamente, criem suas redes de socialização, e mantenha com freqüência o contato com essas pessoas. Procure identificar quem você considera o principal apoio para os momentos difíceis, e deixe claro o que esperar dela, caso você precise revelar alguma situação, sintoma ou desconforto. Muitas vezes precisamos de alguém que nos escute – deixe isso claro! E sempre peça ajuda a um amigo ou alguém próximo, caso você precise de um incentivo para buscar ajuda profissional mas sente um certo bloqueio.

Busque apoio e ajuda
O Centro de Valorização da Vida (CVV) onde é possível buscar ajuda online via chat, conta com voluntários treinados para conversar com aqueles que precisam “desabafar”. Não há necessidade de se identificar. Em casos de crise, dirija-se ao hospital mais próximo ou ligue 911 – sim, os hospitais estão preparados para ajudar também em situações de crises de saúde mental. 

Flavia Feijó é psicoterapeuta e Master em Mental Health

Flavia Feijó
Flavia Feijó mora nos Estados Unidos há dez anos e viveu em Cambridge, Massachusetts, de onde se mudou em março de 2020 com a família para o Colordo. É psicoterapeuta e Master em Mental Health, trabalhou como terapeuta em Dorchester, South Boston e Medford. Coordenou por cerca de cinco anos o Programa de Apoio à Saúde e Bem Estar do Consulado-Geral do Brasil em Boston. Atualmente, Flavia está em processo de organização da clínica Soleil Mental Health Support em parceria com outra brasileira que também é terapeuta e sleep consultant e atenderão brasileiros em Massachusetts e no Colorado, por telehealth ou presencialmente. Contatos com a psicoterapeuta Flavia Feijó podem ser feitos através do e-mail soleilmentalhealth@gmail.com.

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