E agora Daniel? Na cadeia de novo?

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Para quem não sabe ou esqueceu, Daniel foi o codinome usado por José Dirceu nos tempos bicudos da ditadura que ele soube como poucos enfrentar e que como muitos, ajudou a derrubar os coronéis censores e os generais torturadores e truculentos.

Combativo líder estudantil, foi presidente da UNE – União Estadual dos Estudantes já que era estudante de direito, o que lhe deu visibilidade política e em 1968 foi preso depois de participar do Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, Estado de São Paulo. Em 1969 Dirceu foi obrigado a sair do Brasil já que era um dos 15 presos políticos que foram trocados pelo embaixador americano Charles Burke Elbrick que havia sido seqüestrado por opositores do regime militar.

Exilado, foi parar em Cuba onde fez uma cirurgia plástica para clandestinamente voltar ao Brasil e posteriormente anistiado em 1979.

A partir daí reescreveu a sua história e fundou junto com o metalúrgico Lula e representantes de outros segmentos o Partido dos Trabalhadores, legenda pela qual se elegeu deputado estadual e federal. Se Lula era a paixão e o entusiasmo que representava uma história de luta, Dirceu foi o contraponto perfeito, o pensador e idealizador que desenhou um partido que no início era somente uma sigla com militantes dispostos a tudo para crescer, chegar ao poder e fazer a diferença.

José Dirceu angariou o respeito da sociedade brasileira por parecer ser íntegro, honesto e um defensor ferrenho dos seus pontos de vistas e das filosofias pregadas pelo seu partido. Amargou os anos de dureza partidária e por diversas ocasiões foi motivo de chacota e riso de outros políticos que jamais pensariam que o partido nascido no chão da fábrica e nas intermináveis reuniões chegasse a algum lugar.

Dirceu era um dos pregadores mais ferrenhos e ferozes da moralidade pública, da retidão nos negócios de estado e na ética o que durou até o dia em que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder e ele foi nomeado o todo poderoso ministro-chefe da Casa Civil e tudo o que tivesse que chegar a Lula teria que necessariamente passar pelo seu crivo.

Uma vez, governo todos aqueles senhores de meia idade e que foram incansáveis na luta pela liberdade sentiram-se inebriados pelo poder, principalmente Lula que vivia de viagens em viagens mundo afora e parecia enfastiado e pouco a vontade com o cotidiano do governo.

José Dirceu tornou-se então o chefe supremo dos bastidores e se deu conta de que para governar e aprovar todas as propostas de reformas sociais teria que ter uma base aliada dócil e obediente seria obrigado a compor com gente corrupta e malandra que usa a política desde sempre para fazer negociatas e enriquecer.

Logo, o caminho romântico idealizado lá atrás em mesas de botequins foi deixado de lado e optou-se pelo pragmatismo de sempre – muito dinheiro a disposição dos velhacos e das quadrilhas de larápios das quais ele se tornou o dirigente que cooptou os seus comparsas para impor para a sociedade brasileira aquilo que queriam, do jeito que queriam e na hora que queriam.

Tudo parecia muito bem, tudo parecia muito bom, com cada qual levando o seu quinhão de dinheiro proveniente de corrupção até que como dizemos lá no Brasil – a casa caiu e todos os sonhos vermelhos de uma sociedade igualitária e justa aos olhos de Dirceu e do PT caíram por terra embalados pelos milhões de reais que vazavam dos cofres públicos.

Pilhado em ação, Dirceu optou pelo velho e rançoso discurso de sempre – a culpa era da imprensa, das elites políticas, do PSDB, e dos setores reacionários da sociedade brasileira que não tolera aos olhos dele um governo popular e de esquerda.

Quando José Dirceu deixou de ser Daniel e se deslumbrou pelo poder a qualquer custo, jogou por terra toda a sua história admirável, mesmo para quem não gostava dele, mas não podia deixar de reconhecer o seu valor. Por isso e por causa do Mensalão teve de deixar de lado o sonho de ser presidente do Brasil.

Só que agora Daniel já não existe mais.

Daniel jamais se sentaria nos bancos dos réus e seria julgado; certamente estaria envergonhado de saber que o seu mentor sairia da história para ir, condenado por corrupção parar numa cadeia numa esquina qualquer a não ser que opte para fugir – novamente – para a Cuba dos sonhos e de Fidel…

Post scriptum
Ontem, segunda-feira, 3 de agosto, José Dirceu foi preso novamente por envolvimentos na Operação Lava Jato, que roubou bilhões da Petrobras. Quase septuagenário, Dirceu amarga junto com Lula e o PT o ocaso político de uma sigla que um dia se dizia ética, mas que optou pela roubalheira e pela certeza de que sairiam impunes disto tudo. Em vez do sonho dourado, se depararam com a melancolia dos derrotados.

O Daniel do passado merecia um destino melhor e mais digno…

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