CARTAS de Boston # X

Texto e conteúdo de primeira

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Nicolau Maquiavel escreveu um livro em 1513, que reflete a atualidade do poder e da política

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Tenho uma grande admiração por dois personagens bíblicos que chamo de “meus guias espirituais”: Paulo, o Apóstolo, e Filipe, o Evangelista.

Era sobre o primeiro que eu pretendia escrever no décimo artigo contando um episódio pouco conhecido sobre ele, mas mudei de ideia durante uma madrugada de sono perdido.

Andando como um moribundo pela casa obscura, parei diante da estante dos meus CD’s – é, isso mesmo que você leu, CD’s!  

E sem procurar muito, peguei um de Billie Holiday, um dos maiores ícones do Jazz desse país.

A novidade foi procurar uma canção que já mereceu até livros e documentários.

Foi no dia 20 de abril de 1939, acompanhada de oito músicos, que Billie entrou num estúdio pequeno chamado Commodore Records, famoso por seu repertório de artistas progressistas – sua gravadora, a Columbia Records, recusou-se a gravá-la – para finalmente gravar Strange Fruit.

Billie foi uma mulher que sofreu muito. Levou muita porrada na vida. 

Era uma negra num país predominantemente branco e extremamente racista.

E convenhamos, não mudou absolutamente nada.

Dona de um domínio absoluto sobre o que cantava. 

Nada de gestos corporais. 

Parada diante do microfone ela simplesmente cantava e encantava com seu imenso talento. 

Gravou em torno de 230 canções só com músicos de primeira. 

Strange Fruit é ainda hoje uma música impactante. 

Narra os horrores dos linchamentos no país e foi um dos grandes sucessos de Billie.

Foi uma das mais influentes canções de protesto do século 20 e se converteu numa das maiores bofetadas de toda a história contra a violência racial numa das sociedades mais hipócritas do mundo.

Em 1999, foi escolhida pela revista Time como a “canção do século”.

Em 2002, foi incluída no Registro Nacional da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, imortalizada como uma canção de grande importância para o patrimônio musical.

A letra da canção era um poema de três estrofes chamado Bitter Fruit, escrito em 1936 por um judeu chamado Abel Meeropol – professor universitário de New York – sob o pseudônimo de Lewis Allen.

Ativista político e membro clandestino do Partido Comunista, Meeropol, musicou o poema, que era cantado em rodas de esquerda.

Sua primeira aparição pública ocorreu em janeiro de 1937 no jornal sindical The New York Teacher.

O encontro entre Billie e a canção, aconteceu em 1939 no Café Society, uma boate frequentada por setores progressistas e engajados da área cultural, política e social de New York, onde negros e brancos confraternizavam sem problemas.

Em 2015, a organização Equal Justice Initiative, divulgou um relatório sobre os linchamentos. Foram cinco anos de pesquisas e mais de 160 visitas a sites em todo sul do país.

E relatório final apontou 3.959 vítimas de linchamentos em 12 estados do sul entre 1877 e 1950.

Em seu livro, o escritor David Margolick descreve como se dava a maior parte dos linchamentos.

Ocorria em cidades pequenas e pobres, e muitos tinham o apoio da comunidade.

Eram quase espetáculos de entretenimento, que reuniam a população para assistir o rito bárbaro de matar negros brutalmente e em seguida pendurar os corpos mortos em árvores, para exibir o feito.

Imagine em 1939, uma negra cantando uma música que lembrava o assassinato de negros pendurados em árvores para uma plateia de maioria branca!

Para assegurar que ela causasse impacto e fosse apreciada, Billie e Josephson criaram condições específicas para as apresentações.

Seria a última do repertório, que normalmente girava em torno de 10 ou 12 músicas.

Ao sinal, silêncio absoluto, nenhum serviço de bar, ninguém circulando, luzes diminuídas e um único facho de luz sobre o rosto de Billie Holiday.

Como falou Josephson, “as pessoas tinham que se lembrar de Strange Fruit, tinham que sentir seus corpos queimando por dentro”.

Uma música tão perturbadora que não era seguro cantá-la em qualquer lugar.

E Billie sabia disso como ninguém.

A música sofria protestos até mesmo nos lugares onde podia ser tocada.

Não havia censura, mas sua execução em rádios era quase “proibida”, pelo mal estar que causava nos ouvintes.

Numa apresentação no Harlem, no Apollo Theater, em 1943, Jack Schiffman descreveu como se sentiu quando Billie cantou Strange Fruit: “E quando ela arrancava as últimas palavras de sua boca, não havia uma única alma, branca ou negra, que não se sentisse meio estrangulada. Seguia-se um momento de silêncio pesado, opressivo, e então uma espécie de som sussurrante que eu nunca tinha ouvido antes. Era o som de quase mil pessoas suspirando”.

A música causou um choque fulminante e foi tema em vários jornais pelo país e fez parte do repertório de Billie até sua morte.

Vários artistas gravaram Strange Fruit, mas ninguém cantava com a força e a interpretação de Billie Holiday.

A letra
Southern trees bear strange fruit,

Blood on the leaves and blood at the root,

Black bodies swinging in the southern breeze,

Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant South,

The bulging eyes and the twisted mouth,

Scent of magnolias, sweet and fresh,

Then the sudden smell of burning flesh.

Here is fruit for the crows to pluck,

For the rain to gather, for the wind to suck,

For the sun to rot, for the trees to drop,

Here is a strange and bitter crop.

A tradução
Árvores do sul dão uma fruta estranha,

Sangue nas folhas e sangue nas raízes,

Corpos negros balançando na brisa do sul,

Frutas estranhas penduradas nos álamos.

Cena pastoril do heróico sul,

Os olhos inchados e a boca torcida,

Perfume de magnólias, doce e fresco,

E de repente o cheiro de carne queimada.

Aqui está a fruta para os corvos puxarem,

Para a chuva recolher, para o vento sugar,

Para o sol apodrecer, para a árvore pingar,

Aqui está a estranha e amarga colheita.

Adendo
Olivia de Havilland
1 de julho de 1916 – 26 de agosto de 2020

Morreu no domingo, 26, de causas naturais, aos 104 anos, Olivia de Havilland. 

Havilland era a única do elenco principal do super clássico de 1939, “E O Vento Levou” ainda viva.

Foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo papel de Melanie Hamilton Wilkers, antagonista de Scarlett O’Hara, papel de Vivian Leigh, no filme que revolucionou o cinema.

Na década de 1940, Havilland se tornou uma ativista atuante pelos direitos de profissionais do cinema, quando ganhou na justiça uma ação contra a poderosa Warner Bros., para o rompimento de um contrato que a impedia de trabalhar em outros estúdios.

A “Lei de Havilland” como ficou conhecida, deu maior liberdade aos  atores de Holywood dali em diante.

Talentosa, foi uma das atrizes mais bonitas do cinema.

Ganhou dois Oscars da Academia de Melhor Atriz pelos filmes “Só Resta uma Lágrima”(1947) e “Tarde Demais”(1950). 

Sua carreira inclui trabalhos na TV, que lhe deram prêmios Emmy e Globo de Ouro.

Na década de 1950 mudou-se em definitivo para Paris.

Dentre as honrarias a ela concebidas, podemos destacar: 

Estrela na Calçada da Fama em Hollywood (1960), pela sua contribuição ao cinema;

A Medalha Nacional das Artesc(2008), concedida pelo presidente George W. Bush;

Ordem Nacional da Legião de Honra (2010), entregue pelo governo francês e condecorada pelo presidente Nicolas Sarkozy;

Excelentíssima Ordem do Império Britânico (2017), condecorada com o título de Dama do Império Britânico pela Rainha Elizabeth II por serviços prestados às artes e, inúmeros outros prêmios ao longo de uma carreira que começou no teatro em 1933.

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