CARTAS de Boston # VII

Texto e conteúdo de primeira

0
110

VII

Doutor em história, ex-membro do Parlamento Europeu, ex-deputado pelo partido Socialista, secretário de Estado e porta-voz no governo Mitterrand, Louis Max Gallo, dedicou tempo e pesquisa para escrever sobre um personagem da história brasileira pouco lembrado e estudado no Brasil: Giuseppe Garibaldi, “herói de dois mundos”.

Não gosto dessa ideia de “herói”. Infeliz do país que tem “herói”.

Mas vamos lá!

A professora Daizy Stepansky, em 2017, escreveu um belo texto para o jornal O Globo, sobre o livro “Garibaldi, a força do destino”. 

O que despertou o interesse em ler este livro e pesquisar suas fontes. Uma das minhas maiores diversões.

Um líder revolucionário que mereceu o respeito e a admiração de contemporâneos ilustres, como Victor Hugo, Alexandre Dumas e Émile Zola.

Unificador da Itália e um dos líderes da Revolução Farroupilha, Garibaldi construiu uma trajetória admirável numa época de conflitos intermináveis, de uma nova pintura geopolítica, de limites e avanços de fronteiras e de novas formações institucionais.

Gallo escreveu outras biografias, navegou por outros mares: Luiz XIV, O Homem Robespierre, Revolução Francesa, Victor Hugo, Tito, Os Cristãos, Napoleão, Henrique IV, Richelieu, Cesar Imperador, Os Romanos, Rosa de Luxemburgo e até a Itália de Mussolini.

Experiente e devotado, desviou seu olhar e atenção para revelar ao mundo um homem transformador, contando campanhas guerreiras nos campos e jogadas políticas nas cidades. 

Buscou resgatar o cotidiano e o imaginário popular através de diversas fontes. 

Rigoroso no objetivo de revelar seu personagem e permitir uma maior compreensão de suas façanhas, recomendou alguns filmes.

Sedução da Carne e O Leopardo, de Luchino Visconti;  Allonsanfan e San Michele aveva un Gallo, dos Irmãos Taviani; Viva Itália, de Roberto Rossellini e 1860, de  Alessandro Blasetti.

Também não esqueceu das óperas de Verdi, para que todos conhecessem o espírito grandioso de Garibaldi.

Com rigor, não nega o mito e não minimiza a grandiosidade operística do herói.

Olha a palavra aí outra vez! 

Um homem longe de um intelectual. Não fazia discursos de classes, mas o de povo e de justiça: “O socialismo é o sol do futuro”, dizia. 

Republicano, foi pragmático ao pegar em armas e lutar pela unificação durante a monarquia. Democrático, era presidencialista, e, ao mesmo tempo, denunciava o perigo da corrupção na engrenagem pública.

Carismático, atraia multidões que o seguiam nos campos de batalha e o saudavam em praças e assembléias.

Despertava, lógico, a admiração e o temor de outras lideranças políticas. 

Também era um grande sedutor, segundo Gallo. Balançou o coração de muitas mulheres dos mais variados níveis sociais.

Mas foi  Anita, sua grande paixão, guerreira da Revolução Farroupilha, que mereceu em suas memórias um lugar único e especial.

Companheira leal, mãe de seus filhos, a catarinense de Laguna abandonou o casamento e partiu com o amado para aventuras arriscadas, primeiro pelos pampas, depois pela Itália.

Conquistou um lugar na História e perdeu a vida como um verdadeiro soldado em plena luta.

Para o biógrafo, Garibaldi revelava preocupação e até irritação com a passividade, o imediatismo e a falta de compromisso revolucionário dos camponeses.

Lembrava os gaúchos e uruguaios, com seu destemor heróico, com suas lutas cotidianas por causas grandiosas.

Giuseppe Garibaldi viveu 13 anos em solo brasileiro. Conhecia bem o contexto político e social do sul do Brasil. 

Sobre os farrapos escreveu: “Eu vi corpos de tropas mais numerosas, batalhas mais disputadas, mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, nem cavaleiros mais brilhantes que os da bela cavalaria rio-grandense, em cujas fileiras aprendi a desprezar o perigo e combater dignamente pela causa sagrada das nações.”

Mesmo eleito para o parlamento italiano, passou grande parte dos seus últimos três anos na ilha Caprera, na Itália.

Criou a Liga da Democracia, sugerindo o sufrágio universal, que consistia no pleno direito ao voto de cidadãos adultos, independente de alfabetização, classe social, renda, etnia e sexo, exceto menores, além da abolição da propriedade eclesiástica e a emancipação feminina.

Garibaldi morreu solitário, no dia 2 de junho de 1882, aos 74 anos, numa casa pequena e simples em Caprera, onde foi sepultado.

O historiador e acadêmico francês, filho de imigrantes italianos, perguntava em entrevista ao semanário Le Point, “Que preço temos de pagar para nos libertarmos dos determinismos sociais e culturais?”.

Um dia após sua morte, a imprensa francesa, destacava sua paixão pela França, ao mesmo tempo que o recordava como um escritor prolífico, autor de mais de 100 livros.

Na vida política, Gallo, que se afirmava republicano e católico. Nasceu em Nice, em janeiro de 1932. 

Condenava a ideia de “arrependimento histórico”.

Em 2005, lembra o jornal Le Figaro, critica o presidente Jacques Chirac, quando este assume e se penitência da responsabilidade do país no Holocausto.

“Não pertenço à França do arrependimento, pertenço à França orgulhosa de si mesma”.

Este era Louis Max Gallo. Escritor, historiador e político. 

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here