CARTAS de Boston # IX

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LCartas de Boston IX

Cada vez que vejo a “retidão” de políticos como Donald Trump, Jair Bolsonaro e seus asseclas, lembro da burguesia cafona e atrasada de São Paulo, lembro da turma subdesenvolvida do baixo Leblon, lembro do comportamento perverso e mesquinho da “elite” brasileira e seus amigos banqueiros e lembro, indubitavelmente, de Fernando Pessoa e de seu poema Em Linha Reta.

Existem outros textos de outros escritores bem mais próximos dessa realidade que chega trazendo grilhões arrastados por ruas, calçadas, becos e viadutos, ignorados e humilhados. 

O termo humanidade para os bem criados lá no Brasil, é algo abstrato sem qualquer razão ou sentido.

Uma gente que parece limpa, de banho tomado, bem vestida, com belos discursos e sorrisos fartos, mas iníquo. 

Flertando com a ilegalidade, com a corrupção o tempo todo sem demonstrar qualquer constrangimento ou culpa. 

Uma gente má, criminosa, desleal e covarde.

Por isso Em Linha Reta. A expressão mais crua da bem criada e branca sociedade brasileira.

Que nada mais é do que uma crítica às relações sociais que Álvaro Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, observa de fora.

Os versos falam da hipocrisia que o cerca e de forma irônica revela através de uma percepção aguçada as mazelas de seu tempo.

Escondidas em etiquetas, o sujeito lírico aponta os defeitos que todos tentam esconder.

Em Linha Reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo.

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, 

pedindo emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

                                                                    Álvaro Campos

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