Abuso emocional

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Aos 13 anos Andréia disputou uma Olimpíada de matemática e ganhou uma bolsa de estudos para alunos carentes, pois seus pais eram muito pobres e não podiam pagar um colégio particular. Aos 19 anos prestou vestibular para Licenciatura em Matemática na Universidade de São Paulo – um dos cursos mais concorridos, e que forma professores para o ensino fundamental, médio e o bacharelado. Ao se formar ganhou uma nova bolsa para fazer pós-graduação e depois mestrado e doutorado.

Com 24 anos casou-se com Israel de quem era vizinha e que foi o seu primeiro e único namorado e tiveram um casal de filhos. O marido trabalhava como metalúrgico e nem de longe tinha a inteligência e sequer imaginava o destaque que a mulher tinha no meio acadêmico.

Depois do segundo ano de casamento quando Andréia foi contratada como pesquisadora e consultora de uma grande empresa em São Paulo, Israel, até então um homem cordial e educado passou a tratar Andréia pelos mais pejorativos apelidos que podia relacionar com a obesidade da esposa. Baleia fora d’água, Moby Dick, dona redonda, elefante, balão, pipa, botijão, leitoa, urso do cabelo duro, cabelo de bombril, samambaia, ninho de passarinho, capacete, e outros tantos adjetivos que ele podia arrumar todos relacionados ao sobrepeso e ao cabelo crespo de Andréia.

Quem o ouvisse falar podia imaginar que Andréia fosse imensa e com um cabelo totalmente fora dos padrões estéticos. Só, que a silhueta dela não era nada fora dos padrões normais de qualquer mulher que passa por duas gestações, e o seu cabelo nada tinha de anormal.  Se Andréia era respeitada por sua inteligência no meio onde vivia, em casa era cada vez mais humilhada no dia a dia. Israel gostava de receber os amigos nos finais de semana, que se tornaram um martírio para a mulher, que era ridicularizada na frente de todos.

Orientada pelo seu advogado Andréia gravou durante três meses as agressões e quando o pedido de separação foi apresentado ao juiz, ele se indignou contra Israel dizendo que se pudesse o colocaria na cadeia.

Para se livrar de todas as agressões psicológicas que sofreu durante os anos em que ficou casada, Andréia precisou fazer terapia e durante três anos teve acompanhamento médico.

Casos como o de Andréia são difíceis de ser detectados e o objetivo é a humilhação – se possível pública da mulher, do marido ou dos filhos.

Raramente, alguém é submetido a maus tratos por estranhos, e invariavelmente o objetivo é subjugar psicologicamente aquele ou aquela que o agressor julga como rival. No caso de Israel, o diagnóstico médico apontou como causa a diferença intelectual de Andréia, que mesmo sendo de origem humilde como o marido, teve uma ascensão profissional e social as custas da sua inteligência e talento.

Ao se sentir diminuido pela capacidade da mulher, e por não ter um comportamento violento, restou a Israel a agressão verbal buscando atingir a mulher na estima e no ego. Ele queria dizer que se lá fora ela era a Doutora Andréia, admirada e respeitada, dentro de casa ela era a baleia, o Moby Dick, a gorda, a balofa, a urso do cabelo duro e com isto ele pensava se colocar em posição de igualdade.

O que pesou na decisão de separação do casal, foi quando numa viagem de férias para Orlando, ele comprou no Sea World uma orca e deu de presente para Andréia dizendo que era ela.

Um dos desafios de assistentes sociais, psicólogos e autoridades é detectar agressões morais e psicológicas, pois nem sempre o agressor admite que o é. A reação de Israel quando confrontado em juízo com as provas das suas agressões, foi rir e dizer que aquilo tudo era brincadeira. Muitas vezes é assim que reagem os agressores morais e psicológicos. São mulheres que chamam seus maridos de incapazes, fracassados, burros, e não se cansam de relacionar na frente dos amigos todas as – más, na sua opinião – qualidades do seu companheiro.

Algumas chegam ao ponto de dizer do mau desempenho sexual, e qualquer defeito físico é motivo de chacota e piada. Por outro lado são pais que diminuem seus filhos mentalmente, subjugando-os em todos os aspectos.

Hoje, os tribunais e cortes já reconhecem a violência psicológica como motivo de penalização e punição para os agressores. Se você sofre qualquer tipo de violência ou coação psicológica busque documentar e procure ajuda especializada. Foi este o caminho que Andréia optou e não se arrepende, mesmo que Israel fosse o grande amor da sua vida; amor que ficou pelo caminho perdido em agressões e humilhações.

 

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