A história de um racista: de Governador Valadares a supremacista branco

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Nota do blog

Com a ascensão de Donald Trump ao poder, muita gente preconceituosa, racista, intolerante e xenófoba saiu das sombras, entre eles muitos brasileiros. É óbvio que nem todo admirador, e eleitor e adepto do novo presidente faz parte deste grupo. O depoimento a seguir foi dado de livre e espontânea vontade por Tiago – que teve seu nome omitido a pedido, que se identificou como racista e de direita. Tiago é educado, inteligente e articulado e o blog não concorda com suas posições e reconhece o direto que ele tem de ser o que é, e a publicação busca mostrar o que pensam e como agem algumas pessoas que têm como modo de vida o racismo, o extremismo e o preconceito.

Tiago; um supremacista branco made in Brasil…
Tiago veio de Governador Valadares em 1992 para morar na casa de uma tia em Allston, Estado de Massachusetts, depois de se envolver em um acidente onde duas pessoas morreram. Ele não foi indiciado e o inquérito não foi adiante porque sua família – ‘de posses’ indenizou as famílias das vítimas e seu pai achou que era hora de tira-lo dali para evitar que se envolvesse em alguma confusão da qual não pudesse consertar.

A tia que morava com o marido americano e não tinha filhos, tratou de coloca-lo na linha e não deu espaço para qualquer estrepolia. Com 20 anos, Tiago logo aprendeu inglês e um ano depois estava casado com Judy, filha de italiana com um irlandês de quem se separou em 1996. Mesmo com o fim do casamento, Tiago continuou amigo de Jeff, seu cunhado que o apresentou a um mundo totalmente novo e do qual ele se sentiu confortável, onde as pessoas eram racistas e preconceituosas. Tiago que se define como um radical de direita deu espontaneamente o seu depoimento que está publicado a seguir.

No começo até tentei me enturmar com os brasileiros, mas logo vi que não eram do meu nível e deixei de lado. Comecei a sair com turma do meu cunhado que estudava em uma grande universidade em Boston e aqueles caras eram sim legais. No começo não me dei conta do machismo, do sexismo, da misoginia, do preconceito e da intolerância dos caras. Na realidade eu me identificava plenamente com eles todos. Cada vez que ia visitar minha tia e encontrava com os brasileiros que iam lá, saia furioso e me perguntava, como minha tia podia se misturar com aquele tipo de gente. Eu não me dava conta de que eram brasileiros e da minha terra. Embora não tenha feito universidade aqui, sempre tive bons empregos e fiz negócios que me deram uma boa condição financeira e eu me distanciava cada vez mais dos brasileiros. Enquanto minha mãe era viva eu ia constantemente ao Brasil e me isolava dentro de casa já que não tolerava aquela gente. Depois que minha mãe se foi, voltei poucas vezes. No meu grupo de amigos, costumávamos discutir política e sempre me identifiquei com os republicanos, já que detesto tudo o que é liberal e de esquerda. Fui aos poucos ficando cada vez mais intolerante com negros, brasileiros, hispânicos – principalmente os mexicanos, homossexuais e tudo que não fosse a vida americana conservadora. Só namorei com mulheres brancas e uma vez, uma delas quis ir ao Brazilian Day para ver como era. Acho que não ficamos lá por mais de uma hora e sai revoltado com a falta de educação dos brasileiros. Sempre fui eleitor republicano e queria que a Sarah Palin tivesse sido a candidata em 2007, pois ela teria vencido a eleição. Todos os anos faço as minha contribuições ao partido. Mas voltando ao meu convívio, quando me tornei cidadão tirei o sobrenome muito comum no Brasil e adotei o da família da minha ex-mulher, genuinamente europeu, além de ter adotado um nome tipicamente americano. Os meus amigos racistas nunca foram violentos, mas de opiniões fortes e contundentes. Não toleram negros, gays, imigrantes e quem vive do governo. Como falo inglês fluentemente e tenho os traços físicos de um americano fui aceito por eles. E assim compartilhávamos os pontos de vistas e a intolerância. Considero o Obama o pior presidente que este país já teve e o desastre seria total se a Hillary tivesse sido eleita. Nós iríamos andar para trás muitas décadas. Bem, no meu convívio com as pessoas que pensam como eu, formamos um grupo informal onde tem gente de todas as profissões, alguns participam de grupos de ódio de tão a sério que levam este estilo de vida. Tem juiz, tem político, tem policial, tem médico, professor, empresário, padres, pastores – tinha um brasileiro que saia com a gente por um tempo e que depois nunca mais vi, gente de todos os segmentos da sociedade. Como disse, eu particularmente não gosto de violência, mas algumas vezes fui a reuniões de supremacistas brancos no Texas e no Alabama. Não curti muito porque achei alguns caras bem barra pesada, com um discurso e atitudes neonazistas. Uma destas vezes me apresentaram um sujeito que é um dos líderes da Ku Klux Klan. Detestei o cara, muito arrogante e antipático, mas admirado por um monte de gente. Alguns dos caras que conheço vão sempre nestas reuniões, e eu nunca mais fui, porque uma coisa é ser racista, a outra é ser nazista, o que não desejo ser. Mas gostei bastante de ter ido à França ver palestras e comícios do Jean-Marie Le Pen e da filha dele Marine Le Pen. Gente nacionalista, de direita e que se chegar ao poder não sai nunca mais. Outro cara que gosto bastante é o italiano Matteo Salvini, da Liga Norte, um partido de extrema-direita. Uma característica comum a todos é o ódio e a repulsa ao islamismo e se não abrirmos os olhos, os Estados Unidos irão pelo mesmo caminho da Europa, principalmente a Inglaterra e a Alemanha que acolhe gente que nem sabe quem são. Os atentados recentes são prova viva disto. Outro dia fui a uma consulta médica com um especialista e o cara que veio me atender era um médico de origem paquistanesa. Recusei na hora e ainda reclamei com a direção do hospital. Exigi ser atendido por um médico americano. Também abomino nos brasileiros que querem viver as custas do governo. Tem gente que anda de BMW, de Mercedes Benz, de Lexus e mente para conseguir benefícios do governo. Sinto vergonha de saber disto. Na minha companhia só admito americanos ou documentados e ainda checo o status para saber se estão falando a verdade. A eleição do Trump vai servir para mostrar que a América tem jeito e vejo muitas pessoas reclamando e se espantando com o Bannon (Steve Bannon é um supremacista branco, racista e estrategista-chefe do governo Donald Trump). Eu o acompanho a muito tempo e concordo com as coisas que ele diz e pensa. Uma delas é sobre o islamismo que não deve ter lugar na sociedade americana. O presidente Trump vai fazer história e limpar os Estados Unidos de criminosos, traficantes, estupradores e violadores, de gente que foi deportada e voltou ilegalmente, da imigração ilegal e se livrar de refugiados que só servem para corromper a nossa sociedade. Outra é a de que precisamos valer a máxima de que se deve preservar a cultura branca e européia. Sim, eu sei que não sou europeu, mas os valores são estes. Como eu me defino? Como um americano que teve o infortúnio de ter nascido no Brasil e que este país tem jeito sim, e o presidente Trump vai provar isto”.

Atualização em 15 de agosto: Tiago ou James, nome que adotou após se tornar cidadão continua envolvido com grupos racistas e se considera um supremacista branco. “Não sou adepto de nenhum tipo de violência ou perseguição, mas não posso tolerar ver os Estados Unidos se degradando a cada instante, com a contaminação islâmica e o comprometimento da mídia sempre em favor da esquerda, se combater isto é supremacia, então eu sou um supremacista branco e não abro mão dos meus valores. Pessoalmente estou um pouco frustrado com o presidente Trump, porque acho que ele podia ser mais efetivo e cumprir muitas das suas promessas de campanha e algumas pessoas do meu circulo com quem converso sempre tem o mesmo ponto de vista meu“, disse em contato com o blog, após as manifestações de supremacistas, racistas, xenófobos, neonazistas e da Ku Klux Klan em Charlottesville, Virginia, na sexta-feira, 11 e sábado 12 de agosto.

Imagens meramente ilustrativas. A bandeira confederada é tida como um símbolo do segregacionismo, racismo e xenofobia

1 COMENTÁRIO

  1. Verdadeiramente estamos vivendo “surreal times”. A “eleicao” do DT a presidencia (nao por voto popular) e tudo que tem ocorrido depois disso nao deixam a menor duvida.

    Decepcionante constatar que alguns seres “humanos” e imigrantes (como esse brasileiro de GOVERNADOR VALADARES !!!) em pleno seculo XXI, ainda abracam este tipo de “valores”. Que triste.

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