CARTAS de Boston XIV

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Nicolau Maquiavel escreveu um livro em 1513, que reflete a atualidade do poder e da política

XIV

Segundo alguns historiadores, Machado de Assis escreveu em vida para 5 ou 6% de brasileiros alfabetizados.

Foi o homem mais civilizado do país no seu tempo.

Nasceu, viveu e morreu (1908), no Rio de Janeiro – um ano antes do nascimento do Grêmio – desculpem, eu não podia deixar passar essa oportunidade!

Machado de Assis veio ao mundo 142 anos depois da morte de outro ícone, que também estava muito além do seu tempo.

Chamava-se padre Antônio Vieira. 

Em pleno século XXI, grande parte do povo brasileiro é composta de iletrados, classe que se encaixa perfeitamente a grande maioria dos que se graduam nas universidades.

Minha mãe foi professora e funcionária pública. Culta, era uma mulher capaz de conversar por horas a fio sem cometer um erro de português. Sua concordância verbal era perfeita. 

Lia como poucos e escrevia como ninguém.

Quando alguém próximo comentava surpreso a incapacidade de uma determinada pessoa diplomada com curso superior, em escrever, interpretar um texto ou incapaz de desenvolver um raciocínio lógico, ela, com uma suave ironia, dizia: “Um burro com uma bruaca cheia de livros não faz dele um letrado. Ele continua burro”.

É o caso dos brasileiros e brasileiras que chegam aos Estados Unidos e se acomodam. 

Morar aqui simplesmente, não transforma ninguém em cidadão ou cidadã de primeiro mundo. 

Computador, internet, celular de última geração e inglês não qualifica ninguém para coisa alguma.

Como Assis, Vieira tinha absoluta consciência do mundo em que vivia. A dimensão clara da realidade de uma colônia portuguesa.

Nós somos filhos de um país de banguelas e analfabetos entregues a própria sorte.

Se hoje o futuro do Brasil é assustador, imagine como era no tempo deles.

Mudou-se para o Brasil com a família quando tinha seis anos de idade, em 1614.

Seu pai, Cristovão Vieira Ravasco, fora incumbido ao cargo de escrivão em Salvador, capital do Brasil.

Matriculado no Colégio dos Jesuítas, destacou-se entre seus colegas e descobriu sua vocação religiosa.

Dedicado aos estudos, mergulhou em filosofia, línguas, teologia, retórica e dialética tornando-se um dos mais importantes oradores de sua época.

Estreia no púlpito com o sermão Maria, Rosa Mística, já causando impacto. Em 1634, um ano depois, ordena-se padre.

Foi membro da Ordem dos Jesuítas ou Companhia de Jesus, ordem religiosa fundada em 1534 pelo espanhol Inácio de Loyola e mais seis colegas da Universidade de Paris e que atua até hoje em diversos países.

A ordem foi aprovada pela igreja Católica e confirmada pelo Papa III através da bula Regimini militantis Ecclesiae em 1540.

A ideia natural de Machado de Assis consistia em que o homem mudaria o mundo, mas ele próprio não mudaria.

Não tinha ilusão sobre nada. Aplaudiu a abolição com ceticismo. Tinha convicção absoluta de que os negros não seriam de fato livres. 

Tinha motivos de sobra, vivendo num país feudal, de renunciar à sociedade e aos homens.

A abolição é a aurora da liberdade; emancipado o preto, resta emancipar o branco”  (do livro “Esaú e Jacó”).

Um domingo, 13 de maio de 1888, o dia amanheceu ensolarado no Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil.

O país carimbava na testa a vexa de ser o último da América a acabar com a escravidão.

Cinco anos depois daquele domingo de festa pelas ruas do Rio, Machado de Assis escreveu:

Todos saímos à rua. Todos respiravam felicidade, tudo era delírio. Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto”.

Outro gênio da nossa literatura, Lima Barreto, completava sete anos naquele 13 de maio e comemorou seu aniversário no meio da multidão em festa.

Décadas depois lembrou: “Jamais na minha vida vi tanta alegria. Era geral, era total. E os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente (de) festa e harmonia”. 

Ao longo de mais de três séculos, foi o maior destino de tráfico de africanos no mundo, quase cinco milhões de pessoas.

A festa no Rio e em outras províncias pela liberdade sonhada nunca passou de ilusão. 

132 anos depois os negros continuam cativos.

A degradação e miséria escravocrata ainda segue viva pelas vielas das periferias das grandes cidades brasileiras.

Como escreveu Joaquim Nabuco: “O verdadeiro patriotismo é o que concilia a pátria com a humanidade”.

Antônio Vieira seguiu seus estudos em Teologia e ainda Matemática, Metafísica e Lógica, conquistando mestrado em Artes. 

Como professor em Olinda no Colégio dos Jesuítas, padre Antônio Vieira presenciou a primeira invasão holandesa no Brasil (1630-1654).

Como pregador defendia a colônia e exaltava a defesa de sua soberania. 

Chamado por Dom João IV, retorna a Portugal destacando-se com suas pregações e sermões, que atraíam milhares de pessoas.

Com forte influência política na capital Lisboa, o maior pregador da Corte, foi ameaçado de expulsão da Ordem dos Jesuítas e acabou, então, nomeado por Dom João IV “Pregador Régio”.

Tendo conquistado o rei e a rainha D. Luísa, participou de missões diplomáticas pela Coroa portuguesa na Holanda, França e Itália pregando sempre contra a Inquisição e o preconceito da igreja Católica contra os judeus, chamados de “cristãos-novos”, pregava a volta deles para Portugal, país católico que os expulsara.

Enfrentou inúmeras intrigas na Corte. Tornou-se um excelente mediador e chegou, num dado momento, a propor ao rei entregar Pernambuco de vez aos holandeses. 

Em 1653 volta para o Brasil e se dedica às missões de catequese no Pará e no Maranhão, uma vez que dominava sete idiomas indígenas. 

Compra briga com os colonos escravagistas do Maranhão. Por essa razão, os Jesuítas são expulsos em 1661, retornando a Portugal.

Perseguido pelo Inquisição é acusado de heresia – Vieira defendia a liberdade religiosa e o direito dos judeus – e acabou preso. 

Depois de muitos interrogatórios durante os dois anos que esteve preso em Coimbra, foi finalmente anistiado pela igreja e absolvido pelo Papa em 1675.

Padre Antônio Vieira possui uma vasta obra literária. São poemas, textos, cartas, romances e sermões.

Foi um dos personagens mais importantes em Portugal e Brasil do Barroco, movimento que começou na Roma dos Papas.

Seus sermões eram conceptistas. Uma vertente do Barroco que buscava expressar a realidade com termos precisos, saindo da fantasia sem perder a beleza, não como fim, mas como um meio para transmitir suas ideias.

A busca do padre Antônio Vieira era passar mensagens que levassem ensinamentos e reflexões, capaz de evangelizar e catequizar.    

Retorna ao Brasil em 1681 sem dar trégua para suas missões em vilas de colonos e aldeias indígenas.

Para os índios era chamado de “Paiaçu”, termo da língua Tupi que significa “Grande Pai”.

Para o poeta Fernando Pessoa, foi considerado o “Imperador da Língua Portuguesa”.  

Deveria ser obrigatório nas escolas e universidades brasileiras estudos das obras de Machado de Assis e do padre Antônio Vieira, por exemplo; serviriam, e muito, não apenas para tirar os jovens da ignorância, mas para criar neles a compreensão da necessidade de se construir um país de verdade digno do seu tamanho.  

Alguns sermões do padre Antonio Vieira: para ler o ‘Sermão da Sexagenária’, clique aqui. Para ler o ‘Sermão de Santo Antonio (dos peixes), clique aqui e para ler o ‘Sermão do Mandato’, clique aqui.

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